Carta aos meus sogros



Hoje decidi escrever em português de forma a devolver algo que está comigo à cerca de um ano mas que não é meu. Que me magoa muito mais do que aquilo que eu penso que me deva magoar e que eu sinto que está mais do que na hora de eu devolver e libertar-me destas amarras que me trazem tristeza e dúvida e que me fazem sentir menos mulher, menos esposa, menos eu do que a própria pessoa que eu sou e que eu sei que sou. À cerca de um ano atrás os meus sogros recusaram o convite de atender ao casamento entre mim e o filho deles, entre muitas das razões porque eu lhes fiz frente. Fiz-lhes frente e secalhar não me cabia a mim fazê-lo mas não me arrependo nem nunca me arrependi de o fazer porque o meu amor pelo meu marido irá sempre prevalecer e irei sempre defendê-lo com unhas e dentes contra todos aqueles que o quiserem magoar, que o tratarem como um objeto, com desdém e com interesse. Ao fazer-lhes frente, toquei em assuntos enterrados de família, na qual eu nunca estive presente, mas que magoaram o coração do meu marido e que ele nunca teve a coragem de lhes dizer. Ao fazer-lhes frente ouvi de caras que eu era tudo e mais alguma coisa e que nunca iriam ao nosso casamento. Isto partiu-me o coração porque até ali eu nunca achei que estas pessoas fossem tão más. O que veio a seguir foi pior. Ainda vim a descobrir que para além de tudo isto, durante os anos anteriores eles falavam mal de mim: que eu era uma enjoada, que eu era uma gorda, que eu não tratava bem o filho deles, que só estava com ele por interesse, que o “escravizava” em casa, que não lhe fazia comida, que não trabalhava, que eu tinha um feitio de merda. E para além das queixas e nomes que faziam de mim aos outros, falavam mal do próprio filho, das escolhas dele, da presença dele, da forma como ele era. Eu entreguei-me a esta família como se fosse a minha futura família. Durante os anos que conheci o meu marido, namorado/companheiro na altura, em que não sonhava sequer com semelhante novela, eu entreguei-me a esta família, dado a minha própria família se ter desintegrado, eu entreguei-me a esta família, eu passei o natal com eles, passei aniversários com eles, festas com eles e sempre que saía a porta para voltar a casa com o meu marido, era mal falada. A um mês de me casar, isto partiu-me o coração. Podem imaginar como o coração do meu marido ficou. Esta maldade que entrou nas nossas vidas, este sofrimento que entrou nos nossos corações, que nos feriu e neste momento falo por mim, escrevo por mim, eu tenho que devolver. Faz um ano. Está mais que na hora. Liberto-me disto! Neste momento, somos nós os dois e três cadelas e entre altos e baixos, somos felizes. 



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